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País de Incendiários
Data de Publicação: 29/05/2025
Pesquisa, entrevistas, escrita e narração:
Manuel Bivar e Sofia da Palma Rodrigues
Montagem sonora:
Inês Sambas
Banda sonora original:
Henrique Silva e Zé Cruz
Edição de texto:
Diogo Cardoso, Luciana Maruta
e Pedro Miguel Santos
Edição e mistura de som:
Luís Pinto
Ilustrações:
Nogueira Lopes
Design:
José Mendes
Gráficos interactivos:
Beatriz Malveiro e Rita Costa
Animação gráfica:
Pedro Lopes
Desenvolvimento web:
Manuel Almeida
Consultoria de imagem:
Ricardo Venâncio Lopes
Revisão de texto:
Teresa Montenegro
Produção:
Ana Pereira
Comunicação:
Beatriz Walviesse Dias
Tradução para inglês:
Sandra Young
Revisão de texto em inglês:
Richard Preston
Esta investigação começou no final do Verão de 2023, à beira do rio Sever, a olhar para a encosta acabada de arder do Castelo de Marvão, no Alentejo. Ao escutarmos os boatos de fogo posto que corriam nas margens do rio, surgiu a pergunta: “O que leva uma pessoa a sair de casa e deitar fogo a tudo o que a rodeia?”
Numa pesquisa prévia, começámos a ler notícias publicadas nos jornais sobre fogo posto. Encontrámos 289 artigos relacionados com incendiários, publicados entre 2015 e 2023 no Correio da Manhã – o jornal que mais atenção dá ao tema. Mas não achámos uma única história de vida ou uma reportagem aprofundada. Na maior parte das vezes, o que se podia ler eram meras cópias dos comunicados que a Polícia Judiciária (PJ) escreve quando apanha e leva alguém preso; ou editoriais e artigos de opinião que pediam o endurecimento de penas para os acusados de pôr fogo. Noutros meios de comunicação, o tema era evitado. O foco estava sobretudo nas causas estruturais que, a cada ano, fazem o país arder: o desordenamento do território, a desorganização do combate ao fogo, as alterações climáticas, o abandono do Interior, o desaparecimento da população e a monocultura do eucalipto.
Mas se na última década mais de 600 incendiários foram acrescentados às bases de dados da PJ, é sinal de que alguma coisa se passa. Quando começámos este trabalho, tínhamos uma hipótese: o incendiarismo também é uma causa estrutural dos incêndios rurais, e não um isolado devaneio criminoso, sem razão aparente. Uma causa estrutural que envolve doença mental, alcoolismo, abandono, miséria, raiva e revolta contra o sistema.
Quem são estas pessoas? Que vida levam? Onde vivem? Que motivações tiveram? “País de Incendiários” é o resultado de um rol de perguntas para as quais tentámos encontrar respostas, percorrendo Portugal de Norte a Sul, ao longo de dois anos.
Antes de começarmos a fazer entrevistas, decidimos analisar os números oficiais sobre incendiarismo que todos os anos são publicados no ICNF. Os primeiros relatórios que lemos apontavam que Portugal era o país da União Europeia mais afectado pelos incêndios, e que a principal causa eram os pequenos descuidos com queimas de restos de vegetação.
Mas depois de dias às voltas com a tabela de Excel onde estão divulgados todos os dados sobre incêndios em Portugal – data, hora, localização, motivação, hectares queimados – concluímos que o incendiarismo é a principal causa de área rural ardida no país. E esta foi uma descoberta inesperada.
Com essa informação, decidimos falar com quem publica as estatísticas e com os responsáveis pelas medidas de combate ao fogo. Junto dessas instituições, percebemos que pouco está a ser feito para parar o fogo posto. Apesar da clareza dos números que anualmente são publicados por essas mesmas instituições, encontrámos uma desvalorização do fenómeno. Como se o incendiarismo fosse uma causa com pouca relevância. Parecia um tema tabu, demasiado complexo para que alguém o quisesse abordar.
Desde o início, a principal motivação desta investigação foi falar com incendiários. Não sabíamos por onde começar mas, a dada altura, lembrámo-nos de ir aos tribunais consultar processos de pessoas acusadas pelo crime de incêndio. A maioria eram condenações para pagamento de multas, por causa de pequenas queimas que se tinham descontrolado. Mas também havia histórias de quem tinha posto fogo por outros motivos, não tão facilmente explicáveis.
A nossa estratégia foi bem-sucedida, conseguimos aceder às moradas e chegar à fala com os incendiários que entrevistamos neste podcast. Com a limitação de apenas termos conversado com quem foi levado a julgamento.
Interessou-nos ouvir o maior número de casos possível, de diferentes regiões do país. Traçar um retrato polifónico, não apenas focado num processo em particular. Fazê-lo foi muito mais fácil do que ao princípio tínhamos imaginado – por todo o lado encontrámos pessoas cheias de vontade de falar. E ficámos surpresos com isso, parecia até que estavam à espera de alguém que viesse para as escutar.
Logo nas primeiras entrevistas, foi-nos claro que não iríamos partilhar o nome de pessoas acusadas de pôr fogo, nem os locais onde vivem, ou os lugares onde falámos com elas. Pareceu-nos que fazê-lo poderia colocar em risco quem aceitou confidenciar-nos as sua história e, muitas vezes, se encontrava numa situação de grande vulnerabilidade. As únicas referências que fazemos a nomes de incendiários são as de casos conhecidos, já amplamente divulgados pela imprensa.